O meu Blog

O Blog "Verba Volant, Scripta Manent" foi criado no âmbito de um exercício académico. Desde então, e por forma a dar alguma continuidade à experiência iniciada na blogosfera, mantém o objectivo de partilhar alguns textos pessoais, bem como outros materiais literários do nosso interesse.

Todos os comentários, sugestões ou críticas serão sempre bem-vindos!

Porque as palavras faladas voam... e a palavra poética, tantas vezes, fala por si... e permanece... sempre!

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A ilha

Sigo
deitado 
num barco 
que balança
ao ritmo das ondas 
deste mar

Sigo

até ti

sábado, 10 de janeiro de 2015

Ulysses ou Exílio

Junto a um porto de onde parti
ficou a minha Alma adormecida

Cada dia me afasto mais
e o regresso a Ítaca fica distante
utopia pensada
e apenas sonhada

É tempo de peregrinação

sábado, 15 de novembro de 2014

[Eram três pássaros...]

Eram três pássaros presos numa garganta
Esvoaçavam, em vão, desejosos de partir
Um deles, conseguiu libertar-se
Outro deles sufocou de tristeza
O ultimo - amor que me quis -
deu-me as asas, a voz e a liberdade


(Troyka Manuel)

domingo, 12 de outubro de 2014

[É um lamento, uma palavra destoada]

(Para F.)

É um lamento, uma palavra destoada
É uma régua desalinhada, o cacho de uvas
Apodrecido pela chuva
É o caos, é a míngua e o excesso
É a saudade do que se não tem

Tudo o que se me move
Tem uma língua vermelha
O apetite voraz de uma ausência
Que nunca chegou a partir
E nunca partiu do chegar

(Troyka Manuel)

domingo, 14 de setembro de 2014

Talvez


Conheci um dia
os passos de um transeunte
que cedo abandonou a sua pátria.
Vislumbrou todos os sonhos,
coseu esquinas com linhas duras
com medo de se perder.

O mar que o viu partir
ainda hoje chora a sua ausência,
uma demora por explicar ainda,
um regresso adiado
(talvez não volte a regressar),
uma pequena dor,
uma moinha que sangra
paulatinamente
e escorre esverdeada por todo o oceano.

Era jovem o transeunte
e acreditava no horizonte,
espelho de uma alma que se procurava
e se erguia livre no rumo que seguia.

Bem cedo, porém,
entendeu que é impossível
fixar instantes à beira da praia,
no areal desfeito das vontades.

Talvez tenha crescido
Ou talvez não...

(Troyka Manuel)

sábado, 28 de dezembro de 2013

Ícaro fui em terras que não eram minhas
à velocidade de um deslize
caí inteiro, de rompante
resvalei, cadente
sem asas sem rede

alguém cantarolou uma música alegre
que me fez levantar a cabeça

e a queda?
não foi assim tão grande
ainda tenho sete vidas por viver 

(Troyka Manuel)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Cesário Verde (in memoriam)

Olho as luzes longínquas
onde a vida acontece e se faz.
Permanentemente.
Guardo a memória do calor,
a lembrança de um olhar,
o sorriso de ouro fundido.

É quase madrugada
e o mundo pára... deixa de ouvir
as melodias do Encontro-Agora,
o brilho térreo, a vida galopante, 
o tilintar dos copos felizes.

Horas mortas que se escondem
(e nos escondem abrigados de nada),
horas vãs, vazias, veladas.
Tudo se transforma 
em bruma poeirenta e húmida,
frio caldoso de uma chuva memorável
que nunca chegou a cair.


(Troyka Manuel)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

térreos limites de uma só vida
condenados ou condecorados?
vistas largas se anunciam
o sol vai alto

“- Mais luz!”

e os livros abrem as suas páginas
até ao infinito
(Troyka Manuel)

sábado, 14 de dezembro de 2013

A partida transporta a vida num gesto
e o adeus, um breve aceno (um abraço esquecido),
toldam-me os olhos enevoados.
Cinzelei os meus dedos nos dedos teus
e a mão desfez o molde que nos criou,
quebrado, desconcertado.

Num cruzamento encontrei-te a vida,
mas as torres desnortearam os seus sentidos,
paralelas vias se tornaram.
(Olho-te de longe…
Em atalaia cada vez mais vaga…)
O medo escureceu os teus olhos,
espantou tu’alma de embarcação fria,
obliterada nos teus nós intransponíveis.
Fiquei à porta dessa muralha. Espero. Ainda…

Raiz acesa de uma árvore já morta,
malha de cordas que me abismou,
ensimesmada teia onde quis entrar.
Tudo vive e encanta
e depois… assembleia vácua de gente viva.
Apenas a chuva me queima o rosto gasto,
todo o prado do sentir na tua muralha-escudo me ficou.

É mais fácil partir, encerrar as entradas,
abandonar o porto-salvo-abrigo. Partir...
Os bandos também seguem para o Sul.
Chegam todos? Chegamos todos!
Mas ninguém ousa permanecer.
(Troyka Manuel)

domingo, 8 de dezembro de 2013

enleadas mãos no sonho de uma viagem
toque
quente

seguiu
bruma

não volta para trás

(Troyka Manuel)

domingo, 1 de dezembro de 2013

Despertar

Cresce um fumo tardio nas horas lentas,
afugentam-se os bichos, a derradeira luz do dia.
Serve o abismo aos homens loucos,
retardados, génios ou coristas.
Imprimo a devoção titânica do devir,
a concha, a espuma, a areia que se escorre.

Todo o medo se mede e se move
na intransponível praia de ti,
ilha isolada em névoa fechada.
E aí te encolhes em fuga quieta.
Inquietante estado de alerta.
Pânico! 
E permaneces, porém. 
Só de alma molhada. 

Escreve uma carta de despedida
e segue a luz que te chama!
Acorda! Ressurge! Canta e grita!
Solta os grilhões que te impedem de ver.
Abram alas! Abram pórticos e portadas!

É hora! É hora!
Renasce a besta sadia,
o caos em gravidez de risco,
a vida inteira em descoberto!

(Troyka Manuel)


sábado, 30 de novembro de 2013

[Corro]

Corro,
atrapalho-me,
grito,
defendo-me.

Caminho,
descalço-me,
abraço,
repito-me.

As mãos insistem…
Os pés conhecem o trilho…

Troyka Manuel)
12-08-2013



quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Tραγῳδία (Gr. Tragédia)

Cai a noite na sua severidade terrível,
a luz ausente, as sombras cavernais
inimigas do arquétipo.
São fachos de luz que se apagam
num trémito e pérfido acesso trágico.

Cai o fulgor,a sombra,
fundem-se o céu e o mar
numa irmandade incestuosa
e os limites (barreiras do palpável)
deixam de ser regulares e tangíveis.
Tudo estremece na noite escura.
Tudo é pardo, informe e medonho.

Só a luz-dia do devir
pode trazer a chama roubada,
eterna vítima do olhar, 
para sempre opaca em transparência. 

(Troyka Manuel)

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Πρoμηθεύς δεσμώτης (Prometeu Agrilhoado)

(a elaborar um trabalho sobre "Prometeu Agrilhoado" de Ésquilo)

Agrilhoado imperador dos mortais
(mestre, criador, sopro de vida!),
a solidão habita o rochedo onde pereces,
vazio de alma, em lume agora apagado.
Castigado titã de amor incondicional,
homem-quase de humanidade que se dá,
duelo imortal em prisão condenado.

Soltam-se mudos os teus gritos
em águia teimosa que te arremessa
e a coragem te expia
e a coragem te castiga.
Arde o fogo por ti roubado,
esperançoso, vivo e eterno.
O teu grilhão é de ouro perene,
dádiva infinita de saber.
És princípio, és vida, filho da Terra!

Vem, previdente Prometeu!
Ganha as minhas asas
e volta a esta Luz que é tua!  

(Troyka Manuel)

sábado, 26 de outubro de 2013

De scripto [Latim - Sobre a escrita]

escrevo sem tela nem lápis
nas tépidas nuvens que me enleiam
embriagado na lucidez real
de alguém que conhece o tempo
e se resvala num espaço que não é seu


escrevo sem fim
sem pressa
acordado em sonho de viagem
desejo inspirado, tábua rasa
de razões impalpáveis
oprimidas, recalcadas
força de multidão entediada
em cortante e crua lâmina



escrevo de mim
a cores ou branco e preto
o que não conheço
âmago silêncio que brota
de uma asa quebrada
em pena contrita
escravidão que (se) sabe 
e cheira a liberdade
(Troyka Manuel)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

[Cabe um homem na negra noite]

Cabe um homem na negra noite
confusa, trémula de luar?
Cabe um céu no tempo finito de acontecer?
Cabe um desejo no tempo em que partir
é chegar, é cair?

Cabe um homem?
Cabe um céu?
Cabe um desejo?

Cabe a vida e cabe o homem.
(Cabe a vida?)
Tudo cabe, como perder
é ganhar asas-de-tentar!
(Troyka Manuel)



sábado, 12 de outubro de 2013

"O que vemos, o que nos olha" (Título do Livro de Didi-Huberman)

Da persistência nasce a obra,
o entendimento, a olhar que nos olha.
Exactidão perscrutada, perfeição do ser quase
em instante de solidão que se arremessa
e se atira para o vácuo buraco olvidado.

On jette toujours un coup d’oeil.
À tout! À tous!

E espreitamos assim – sempre! –
o abismo, as rochas, o mar profundo,
o espelho côncavo que nos reflecte.
Fixam-se os olhares, intensifica-se a atenção
qual lugar para onde, projecção ilimitada
- espaço de reciprocidade infinda e inabalável-,
metamorfose do celeste númen
ao canto de uma estrada,
por entre roupas usadas e andrajosas.
O Caos, a vida repentina e estonteante
envolta de divinos véus e palavras.
Olhos vidrados de olhar!

Da persistência desponta a obra,
comunhão absoluta de desejos inesgotáveis.
De olhos postos em Outro-de-si,
quando olhar o Outro é perder-se de si. 
(Troyka Manuel)



quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Sendas de rumor

soltam-se rumores, trágicas comédias medíocres
de bem falar mal de tudo existir e acontecer
soltam-se gritos entre ameias de castelos esquecidos
e entre véus e teorias vão-se definindo as regras

gelo que derrete a sanguínea fúria do vulcão
doido embarrigado na vontade do fogo cuspir
soltam-se as bestas livres em carrossel parado
à espera de viv' alma  
que o sopre sustente movimente 
carrossel de fundo abismo lento 
como Zéfiro-Vento entre ninhos de Primavera

incendeiam-se rasgos de luz em clara noite longa
burburinhos em eco flamejante
e gastam-se as horas, o tempo, o escuro
vivendo de fingir ser
como almas penadas estrangeiras de si

numa senda que não é minha nem é tua
(Troyka Manuel)

sábado, 5 de outubro de 2013

[Éramos sangue em silêncio]

Éramos sangue em silêncio.
(Mudo sangue!)
Corria nas veias a densidade de sermos juntos,
a meia lua, o sol alto, a estrela cadente
- paridos de um coração qualquer,
hesitantes, acomodados, vingados.

Éramos a mesma água, o mesmo balde
numa terra de ninguém,
sem espinhos e sem traça.

Éramos fúria-tensão-espingarda
sem tiros nem mortes.
Somente mudos (Sempre mudos!),
calados-esquecidos,
desconhecidos de uma vaga-falsa esperança
que nos sorveu as mãos, o sangue e a vida.
(Troyka Manuel)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

"Lithos" (etim. Grega - "Pedra")

Da pequena pedra rude
se constrói um destino,
uma estátua, um edifício.
Retumba a crueza dos nortes 
empedrados,acastelados de sentir.
Noites sem vento,
erosão degradada em nada.
Rude pedra, enfim,
modelada de pequenos fins.

Estão sós as pedras do rio,
frias, líquidas,
à espera de um destino:
molde inefável da sua Potência
de Ser mais e mais.
Deserta-Ilha de recriar
e sempre se Transformar.

Pequena pedra de vir-a-ser...
(Troyka Manuel)