O meu Blog

O Blog "Verba Volant, Scripta Manent" foi criado no âmbito de um exercício académico. Desde então, e por forma a dar alguma continuidade à experiência iniciada na blogosfera, mantém o objectivo de partilhar alguns textos pessoais, bem como outros materiais literários do nosso interesse.

Todos os comentários, sugestões ou críticas serão sempre bem-vindos!

Porque as palavras faladas voam... e a palavra poética, tantas vezes, fala por si... e permanece... sempre!

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sábado, 23 de novembro de 2013

[só conseguia amar-te se falasse de mim] Al Berto

só conseguia amar-te se falasse de mim
sem cessar

hoje vivo quase sempre sozinho
paciência
os momentos de infelicidade estão esquecidos

uma pétala de luz percorre as linhas da mão
o rosto é aquele que sonhei
e não o que a noite dos espelhos tenta dar-me

eis o retrato de meu único amigo
a quem tudo revelo
o que me cresceu no coração


Al Berto

in Uma existência de papel

As pessoas sensíveis (Sophia)


SOPHIA DE MELLO BREYNER

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

In Livro VI - III - As Grades

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O Pagem, Mário de Sá-Carneiro












Sozinho de brancura, eu vago --- Asa
De rendas que entre cardos só flutua...
--- Triste de Mim, que vim de Alma prà rua,
E nunca a poderei deixar em casa...

                      Mário de Sá-Carneiro


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Mito de Sísifo

Relendo Miguel Torga, recordo Sísifo, personagem da mitologia antiga que desafiou a morte e os deuses, sendo por isso condenado a empurrar um enorme pedregulho, com as suas mãos, até ao cume de uma montanha. A cada vez que atingia o cume, a pedra rolava novamente até ao ponto de partida, tendo Sísifo de executar a mesma tarefa durante toda a eternidade. 
Ora, este Mito (repegado de forma interessantíssima por Camus em O Mito de Sísifo)  conduz-nos precisamente à ideia do "absurdo", à noção comezinha dos "esforços inúteis" da monotonia que, tantas vezes, nos toca na pele e tentamos repudiar. Há esforços e endereços inúteis, de facto, contudo já os latinos diziam: "Inutilia truncat" (cortar as coisas inúteis), acabar com as inutilidades. E quantas vezes temos o poder de interromper este trabalho sisifiano, encarar outros caminhos e possibilidades, criar e recriar aquilo que é rotineiro e absurdo, introduzindo a novidade, a surpresa, a superação!?
Nem tudo é necessariamente sisifiano e sem esperança. O que importa mesmo é "Recomeçar" sempre, desbravar novos trilhos, empurrar a pedra para outros cumes.
As paisagens que podemos contemplar de cumes diferentes esperam por nós e estão ao nosso alcance!  

Sísifo
Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, Diário XIII

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Ernesto Sampaio

Assumo que desconhecia o autor.
Todavia, depois desta leitura, com toda a certeza tenho muito mais a explorar.
Porque foi assim... surpreendente!
(Obrigado, EP!)


... Sós, ambos, na estrada, nos confins mais remotos, tu já dentro da noite e eu à beira dela... 
Sós, de mão dada, com os olhos encantados pela imensa pérola luminosa da morte...
Ernesto Sampaio in Fernanda
Para conhecer melhor Ernesto Sampaio: In Memoriam

Requiescat in Pace António Ramos Rosa

Honra ao poeta que hoje perdemos!
RIP - 23 de Setembro de 2013

Não Posso Adiar o Amor 

Não posso adiar o amor para outro século 
não posso 
ainda que o grito sufoque na garganta 
ainda que o ódio estale e crepite e arda 
sob montanhas cinzentas 
e montanhas cinzentas 

Não posso adiar este abraço 
que é uma arma de dois gumes 
amor e ódio 

Não posso adiar 
ainda que a noite pese séculos sobre as costas 
e a aurora indecisa demore 
não posso adiar para outro século a minha vida 
nem o meu amor 
nem o meu grito de libertação 

Não posso adiar o coração 

António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa"

"Não posso adiar o amor", dito por José-António Moreira


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Excerto do Poema "21"

"(...)
Entoo o canto do crescimento e do orgulho, 
Já nos humilhamos e imploramos bastante, 
Provo que tamanho é apenas desenvolvimento. 

Ultrapassaste os demais? És o Presidente? 

Isto é uma insignificância, todos lá chegarão e até ultrapassarão. 

Sou o que caminha com a noite que se estende ternamente, 

Grito para a terra e para o mar semi-envoltos pela noite. 

Aperta-me, noite, em teu peito desnudo – aperta-me, noite, magnética e nutritiva! 

Noite de ventos austrais – noite de grandes e raras estrelas! 
Noite silenciosa que me saúda – noite estival louca e desnuda.
(...)"

Walt Whitman

Canção de Mim Mesmo
Tradução de Alita Sodré

(Obra em pdf)



terça-feira, 10 de setembro de 2013

Mário de Sá-Carneiro









Esta inconstância de mim próprio em vibração
É que me há-de transpor às zonas intermédias,
E seguirei entre cristais de inquietação,
A retinir, a ondula… Soltas as rédeas,
Meus sonhos, leões de fogo e pasmo domados a tirar
A torre d' Ouro que era o carro da minh' Alma,
Transviarão pelo deserto, moribundos de Luar —
E eu só me lembrarei num baloiçar de palma...
Nos oásis depois hão-de-se abismar gumes,
A atmosfera há-se ser outra, noutros planos;
As rãs hão-de coaxar-me em roucos tons humanos
Vomitando a minha carne que comeram entre estrumes...
*
Há sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos...
A cada passo a minha alma é outra cruz,
E o meu coração gira: é uma roda de cores...
Não sei aonde vou, nem vejo o que persigo...
Já não é o meu rastro o rastro d'oiro que ainda sigo...
Resvalo em pontes de gelatina e de bolores...
— Hoje a luz para mim é sempre meia-luz....
…………………………………………………………………………………………..
…………………………………………………………………………………………..
As mesas do Café endoideceram feitas Ar...
Caiu-me agora um braço... Olha lá vai ele a valsar,
Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei...
(Subo por mim acima como por uma escada de corda,
E a minha Ânsia é um trapézio escangalhado...)
Lisboa, Maio de 1914 


sábado, 7 de setembro de 2013

Ler Poesia...

Um verdadeiro incentivo à leitura de Poesia. "Ler Poesia é mais útil que os livros de autoajuda". Hoje, brindo à Arte, em todas as suas formas!





Desta forma, partilho um acervo de qualidade de Poesia Portuguesa: Banco de Poesia da Casa Fernando Pessoa.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Reconhecimento à Loucura


Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar

Poemas, Assírio & Alvim